Entre os anos de 1943 e 1945, cerca de 50 mil pessoas foram alistadas e transportadas para a Amazônia com o objetivo de extrair borracha para os Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Esses brasileiros, na sua maioria nordestinos, são os chamados ‘soldados da borracha’. Uma audiência pública, em Brasília, agora vai discutir os direitos desses homens que ajudaram a escrever um importante capítulo da história amazônica.
Atraídos pela propaganda do governo, milhares partiram para a Amazônia, mas o reconhecimento demorou a aparecer. Só a partir da Constituição de 1988 — mais de 40 anos depois do fim da guerra —, os soldados vivos passaram a receber uma pensão como reconhecimento pelo serviço prestado ao País. Mas o valor era pequeno, se comparado aos direitos concedidos aos ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial.
Para discutir a antiga luta desses ‘soldados da borracha’, a Comissão da Amazônia, Integração Nacional e Desenvolvimento Regional realiza, nesta terça-feira (15), audiência pública para analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 556/02, que concede direitos igualitários a ambos os ‘soldados’.
De acordo com a deputada Marinha Raupp (PMDB-RO), a audiência é necessária para que se possa “ouvir os representantes daqueles que, recrutados para trabalhar na Amazônia num momento tão adverso, direta ou indiretamente prestaram relevantes serviços ao país, na defesa da Pátria e da Segurança Nacional”.
A parlamentar acrescenta ainda que é preciso se levar em consideração as necessidades do “soldado da borracha” e seus dependentes, que estão vivendo de forma precária.“É um ato de justiça [conceder os direitos], significa reconhecer mais profundamente a sua importância histórica, o que requer providências urgentes por parte do Estado Brasileiro estabelecendo tratamento isonômico entre esse grupo de brasileiros e os ex-combatentes”, defende a deputada.
Soldados da borracha vivem à míngua em cidades da Amazônia
Devem participar da audiência o vice-presidente do Sindicato Nacional dos Soldados da Borracha de Rondônia (SINDSBOR), George Telles de Menezes; e o presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNC), Manoel Silva da Cunha. Além disto, foram convidados também representantes dos ministérios da Defesa; da Justiça; da Previdência Social; do Trabalho e Emprego; do Planejamento, Orçamento e Gestão; e da Fazenda.
A história
Quando da migração em massa dos soldados à região, a Amazônia reunia cerca de 35 mil seringueiros em atividade com uma produção de 16 mil a 17 mil toneladas na safra de 1940-1941. Mas acordos entre o Brasil e o Estados Unidos demandavam mais 100 mil trabalhadores para reativar a produção amazônica e elevá-la ao nível de 70 mil toneladas anuais no menor espaço de tempo possível.
Para alcançar esse objetivo, iniciaram-se intensas negociações entre as autoridades brasileiras e americanas, que culminaram com a assinatura dos Acordos de Washington. Como resultado, ficou estabelecido que o governo americano passaria a investir maciçamente no financiamento da produção de borracha amazônica. Em contrapartida, caberia ao governo brasileiro o encaminhamento de grandes contingentes de trabalhadores para os seringais – decisão que passou a ser tratada como um heróico esforço de guerra.
No papel, o esquema parece simples, mas a realidade mostrou-se muito mais complicada quando chegou o momento de colocá-lo em prática. Surtos epidêmicos matavam dezenas de soldados da borracha e seus familiares nos pousos de Belém, Manaus e outros portos amazônicos. Ao contrário do que afirmava a propaganda oficial, o atendimento médico inexistia, e conflitos e toda sorte se espalhavam entre os soldados já quase derrotados.
Mesmo com todos os problemas enfrentados (ou provocados) pelos órgãos encarregados da Batalha da Borracha, cerca de 60 mil pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos entre 1942 e 1945. Desse total, quase a metade acabou morrendo em razão das péssimas condições de transporte, alojamento e alimentação durante a viagem.
Tão logo a Guerra Mundial chegou ao fim, no ano seguinte, os EUA se apressaram em cancelar todos os acordos referentes à produção de borracha amazônica. Imersos na solidão de suas colocações no interior da floresta, muitos deles nem sequer foram avisados de que a guerra tinha terminado, e só viriam a descobrir isso anos depois.
Alguns voltaram para suas regiões de origem exatamente como haviam partido, sem dinheiro e doentes. Outros, sem dinheiro e sem transporte, se resignaram em permanecer na Amazônia. Poucos – muito poucos – conseguiram tirar algum proveito econômico daquela batalha incompreensível, aparentemente sem armas, sem tiros e que produziu tantas vítimas.
Fonte:portalamazonia.com



